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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ser (egocêntrico)

Por vezes, na culminância desse período de auto-afirmação que é a adolescência, queremos ser catalogados como alguma coisa neste imenso inventário de pessoas semelhantes. Ora queremos ser punks numa luta contra o sistema, ora queremos estar na moda com acessórios pitorescos mas, ao fim de contas, queremos ser quem somos divulgando os nossos gostos ao mundo através de um ídolo invisível. Optamos por motivos rebeldes ou diferentes que nos tornem substancialmente únicos, embora no fundo essas mesmas bases tenham em comum o mesmo seio criador – a sociedade. São, de facto, as escolhas que fazemos ao longo da vida que nos definem e que nos tornam cada vez mais únicos sem precisarmos de um "nome". Afastamo-nos do “querer ser” para "ser" simplesmente, sem atenção à nota de rodapé.

É fácil dizer que somos “alguma coisa”. É fácil fingir. Porém, não é fácil admitir quando finalmente temos plena noção de que absorvemos uma determinada característica que alastrou sem querer. Bem podia dizer que sou “um perigo para a sociedade” ou que “não sou boa companhia” como um dia me disseram a mim, mas quando finalmente temos plena noção de que o atingimos, atingimos o grau de no good verdadeiramente, então escolhemos seguir por um caminho diferente, rumo a outra coisa! Só percebi isto há pouco tempo. Podia garantir que sou uma pessoa problemática e inconstante a quem quer que quisesse uma companhia algo instável, mas quando os de fora se apercebem impávidos de que sou realmente instável então no meu íntimo fantasioso só desejava nunca alguma vez me ter catalogado como tal na rebeldia da adolescência.

Bem dizem, quando queremos muito uma coisa, conseguimo-la sem problema. É preciso acreditar... Será possível encontrar um ponto de retorno?

I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good

domingo, 16 de agosto de 2009

slow dance

Todos os fins-de-semana soltava uma aragem demorada do seu peito, já estavam habituados ao bocejo característico face à constatação da insignificância da ordem material e, logo que se sentava no banco do café, trazia qualquer história mirabolante nova e totalmente descabida dos dias dos mortais comuns. Era então que, antes de se resguardar nos lençóis com cheiro a lavado, se preparava para uma nova inspiração. Chama-lhe de fumo. E, a partir desse ponto zero, a semana ganhava um novo conforto, quando as pálpebras inchadas cobriam os olhos (quase que melodicamente) e todo o gesto de moleza se enquadrava no avançar dos ponteiros do relógio. Os devaneios passam a ser os bailarinos na pista slow, as preocupações escondem-se atrás das cortinas do palco, e amanhã é um dia belo.

Eu escrevo isto porque ainda não se fez revolução e tenho saudades de abraçar estas alturas.
"E sabem que eu não corro, porque eu sou fumadora e os fumadores não correm."

Dias sem Revolução

Apela-se à Revolução! Esqueçam-se os benfeitores modernos que escondem os cancros no conforto de casacos felpudos e cor-de-rosa, mesmo as suas amantes, com os lábios esquartejados por um baton vermelho. Sociedade desventrada de valores, Baco de putrefacção. É tempo, sim, de agitação –, murmuro eu, contrafeito. Rompamos com disfarces, prisões passionais, consumos enlouquecidos e, vamos, cessem essas drogas espirituais; falta o que sempre faltou: energia, mais sinergia – além-mar. Mar. Nós, os netos de descobridores de novos mundos, ficámos votados à linha da rebentação, cuja maré tresanda um lastro de derrotismo.

Cresci, sem ver a cor da Revolução, em vaga de pasmo, rumo à ignorância. Nem as moscas ousavam bailar nos céus de um país quebrado na amargura do seu enterro. Sem miragens de mudança, vigor para correr, na companhia de alguma metafísica, de algum astrolábio fidedigno, aguardamos, com um copo de vodka limão na mão, algum tremor, algum sismo que se assemelhe às aparições dos pastorinhos. No fundo, com o empirismo herdado, já das orações dos nossos avós, talvez pudéssemos alterar um ou dois refrães, e mudar o solfejo da sociedade. Poder carimbar-lhe um novo sorriso, talvez menos imbecil. Estancar este trespasse de inércia desde os confins da memória nacional. Sem previsões meteorológicas positivas, diz-se que o sol Lusitano se ausentará para junto de Viriato, numa campa regada de urina, e as intercepções aos guardas do céu, virtuosos anjos, irão permanecer em linha de atendimento no sudeste asiático. Ora, sem sarcasmos, carburados de realismo, ou credos já esgotados, clamemos a Revolução. Um Ipiranga educado. Nem que seja uma farsa vocal, um mero perjúrio. Mas sempre será uma crença de que existe um stock de esperança, no junco do nosso solo pátrio.

Ps: Para quem estacionou a pensar se seria “refrães” ou “refrões”, apenas tenho a dizer que o meu computador identifica o erro na segunda acepção. Portanto, se foi tomado pelo equívoco aquando de toda a leitura, releia, por educação.
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